Sintegração

     Foi proposto para nós alunos uma dinâmica inusitada de interação e análise da teoria, na qual éramos separados em grupos pequenos que mudavam de configuração durante as quatro rodadas.  À cada grupo era endereçado uma temática diferente acerca dos textos propostos pelos professores nas aulas anteriores e o processo de análise era constitutivo de uma visão sintética geral sobre a percepção das leituras e interpretações subjetivas ímpares pessoais e como elas se comportam enquanto conjunto. Outra condição inabitual foi a pré-determinação de papeis diferentes para as pessoas no grupo. Em cada "micro-reunião" havia o papel de debatedor, crítico e observador e a função que a pessoa realizava variava a cada nova rodada.

    Na primeira rodada fui designada ao papel de crítica. Embora já tivesse experimentado o processo da crítica durante a análise das produções nas aulas anteriores, senti como que alheia àquele modelo. Talvez o desconforto tenha vindo do peso de criticar um processo verbal de discussão, algo bem menos concreto que uma produção artística experimental. De qualquer forma, tentei me atentar ao máximo no processo geral de debate do grupo e desprender-me da avaliação individual de cada debatedor. Notei um certo desconforto inicial entre eles com o ambiente de discussão. O nervosismo inicial, as quebras de fluidez do pensamento coletivo e o contato interrompido por coisas externas com certeza reduziram a potencialidade da experiência. Logo percebi também meu anseio de querer mediar a situação e dar direcionamento para a conversa; me deti de pronto. Quando minha vez chegou minha vontade era de falar mundos, delongar em tudo que pensava sobre o tema, mas não era minha função. Critiquei as faltas e sintetizei brevemente o que falaram, pontuando como a opinião geral entre os participantes mudou à medida que debatiam.

    Quando passamos pela segunda e quarta rodada passei para o lugar do debate. Não me considero uma pessoa tímida mas durante o processo de isolamento perdi muito da minha desenvoltura de diálogo. Estava especialmente nervosa para o lugar de debatedora, já que me colocava numa zona da qual havia perdido o conforto gradativamente. Nesse sentido, foi surpreendente ver como foram fluidos nossos debates. Em ambas situações sintetizamos os pontos de vista em uma análise coletiva do tema, sem que fosse perdido o caráter ímpar de cada interpretação. Cada um trouxe, através de experiências pessoais e integrantes, a própria visão sobre os assuntos propostos, o que ajudou a criar uma relação mais intimista e menos intimidadora (como eu supunha que seria inicialmente). Mesmo que não tenha tido nenhum contato prévio com praticamente nenhum dos meus colegas debatedores a maneira informal da fala e a abordagem plural das temáticas funcionaram como um "quebra-gelo" para que o debate tivesse sucesso. Em suma não nos preocupamos em chegar à uma conclusão definitiva sobre nenhum tema. Ao invés disso, concentramo-nos em investigar melhor os conceitos e suas significações, o que agregou muito para meu entendimento, abrangendo minha perspectiva de análise.

    Curiosamente percebi que tinha mais dificuldade em não falar do que em falar. Embora a posição de observador fosse a mais confortável, senti muito custo em continuar engajada na rodada, enquanto que nas outras experiências eu ficava cada vez mais instigada à medida que a discussão avançava.  Muitas vezes enquanto observadora eu senti vontade de abrir o microfone ou de anotar algo para comentar depois com meus colegas. Foi uma experiência nova e senti meu comportamento muito cru, mas no final me interessei bastante na ideia de participar de forma passiva no debate e poder, dessa forma, ouvir somente perspectivas externas acerca de um assunto.





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