MEU EU-OBJETO

 


Escolher algo físico que te representa pode ser tão limitante quanto expansivo. Na primeira vez que eu pensei sobre um objeto que traduzisse quem sou meu primeiro pensamento foi coisa alguma. Abriu-se um vácuo no meu íntimo que tornava qualquer ideia inexpressível, qualquer sensação aterrorizante. Nenhum objeto parecia exprimir meu eu e eu não parecia me inclinar à nenhum objeto. 
Tentei então uma diferente abordagem: primeiro entenderia quem eu represento para depois descobrir o que me representa. A proposta foi um fracasso. O sentimento que se seguiu foi de puro desespero. Por não saber quem sou, não saber o que sou, uma verdadeira perda de identidade dos eus que me compõem. 
Depois da estafa de mim mesma (ou a falta de mim), cambiei de perspectiva para exclusivamente o externo. Horas caminhando na minha casa bisbilhotando cada coisa que meus olhos sondavam. Foram dezenas de gavetas abertas, caixas reviradas, uma invasão generalizada do que era meu. Mesmo assim nenhum dos objetos que eu detinha parecia falar comigo.
Foi só quando entreguei a toalha que algo surgiu. Exausta de procurar por subjeções e coisas, resolvi ceder ao que me atraía mais no momento: o chão de quintal na sombra da amoreira. Por lá que encontrei, em um canto não muito distante de mim, o meu objeto. É um vaso simples de cerâmica, moldado do barro pelas mãos do meu avô e adornado com figuras disformes por mim. No seu interior, guarda a capacidade de criar o novo, a casa para a expansão. Assemelho-me à ele por essa dicotomia entre o seu exterior convidativo e o interior um tanto abstruso. Assim como eu, um pouco esquecido do olhar cotidiano, mas com múltiplas possibilidades de ser. Feito pelo afeto e potência.









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